Colégio Mater Dei – Unidade São Paulo

Mordida – em quem dói mais?

Até os três anos de idade as mordidas são conhecidas e comuns entre as crianças, mas sempre preocupam pais e professores.  As mordidas acontecem principalmente no período de adaptação escolar, em que, além da maioria das crianças estar vivendo sua primeira experiência social extra-familiar, os grupos estão em fase de formação e de “primeiras impressões”. Também presentes em situações de entrada de crianças novatas, as mordidas quase sempre fazem parte da rotina diária das crianças. Não é fácil lidar com esta situação, tanto para os pais (é muito doloroso receber o filho com marcas de mordida!) quanto para os educadores (que sempre se sentem impotentes, incapazes que são, na maioria das vezes, de impedir que elas aconteçam). Por que as crianças pequenas mordem umas às outras e às vezes até a si mesmas?Expressão de agressividade? Violência? Stress? Sentimento de abandono?. Para entender o fato, é preciso voltar nossa atenção para o desenvolvimento físico e emocional das crianças.

O mundo pela boca

Crianças pequenas têm interesse e curiosidade por tudo que há à sua volta, e geralmente mordem simplesmente para conhecer. A grande interação com o mundo, todos sabem, baseia-se nas sensações e principia pela boca – a famosa fase oral, por onde o indivíduo faz importantes descobertas, separando o que o constitui e o que constitui o outro. Significativas sensações de prazer físico, psíquico e social acontecem neste período, que acompanha a dentição.
Na fase oral encontramos, com freqüência, a criança mastigando, sugando, chupando, produzindo sons, levando objetos à boca. E também mordendo, desejando conhecer o outro, apropriar-se dele – coisas e pessoas -, manifestando-se desse modo, com essa agressividade primitiva. O conceito de dor, por exemplo, é algo que vai se construindo a partir de suas vivências pessoais e principalmente sociais. Mordendo o outro, a criança experimenta e investiga elementos físicos como sua textura, sua consistência, seu gosto, seu cheiro… E ainda investiga elementos de ordem social, isto é, que efeitos esta ação provoca no meio (o choro, o medo, a reprovação de educador).

É meu!

É claro que, um pouco mais tarde, a mordida ganha nova feição, passando a ser um modo de chamar a atenção mais rapidamente ou a resposta a um desejo contrariado (antes o choro era o recurso mais utilizado para isso). Outras vezes também persiste este comportamento para confirmar suas descobertas, “testar” o meio ambiente: disputa de poder, questionamento de autoridade, ciúmes – ou ainda uma tentativa de defesa: ela facilmente descobre que a mordida é uma atitude drástica. Normalmente essa criança ainda não fala com tanta fluência, articula as palavras com alguma lentidão e sabe que, com essa abordagem mais “enfática”, resolverá mil vezes mais rapidamente a disputa pelo brinquedo.  

Raramente a mordida é um ato de agressividade, e muito menos de violência, já que as crianças dificilmente querem apenas agredir. Mas ainda assim, mesmo sabendo que essas manifestações agressivas na infância não resultam na constituição de um sujeito violento na idade adulta, é claro que esse comportamento deve ser desestimulado. 

Com a estruturação da linguagem e do pensamento e a construção da razão, a criança encontra estratégias mais refinadas para solucionar conflitos.
Em situações estressantes, esse tipo de reação também não é algo raro. Mães e professores têm relatos de crianças que, em meio a um grande número de pessoas, como em festas, por exemplo, mordem por ansiedade e insegurança. Alguns momentos na vida da família também podem detonar irritabilidade e agressões: um irmãozinho chegando; pai e mãe se separando; mudança de casa ainda não assimilada; todos são exemplos muito comuns. Ainda devemos lembrar dos filhos únicos e mais possessivos, que costumam ter um baixo nível de tolerância.

Aos pais e professores, cabe não supervalorizar este comportamento. Se para nós adultos o ato de dividir e interagir já não é tão simples, imagine para uma criança. É necessário trabalhar de forma lúdica pedagógica os sentidos, os gostos, o afeto e a divisão de espaço necessária para uma boa convivência.

Ajudando a criança que morde

Cabe-nos ajudar tanto a criança agressora quanto a que sofre as investidas, identificando as razões das mordidas e interrompendo o processo para evitar a instalação da agressividade no grupo. Fora da situação em que os ânimos estão exaltados, mostre à criança que o amigo ficou triste e machucado. É importante considerar que o conceito de dor, como o de outras sensações, é construído. Imaginar-se no lugar do outro é um excelente exercício para despertar a percepção das consequências das ações que se pratica.
Por mais que pareça a melhor medida, o isolamento da criança não resolve o problema. Aprende-se a conviver bem experimentando a convivência. Ao mesmo tempo, dê mais atenção às crianças para reduzir a incidência de ataques.
Antecipe a ação negativa intervindo para evitar que a criança reincida. É preciso aprender a identificar o contexto dentro do qual ela apela para a mordida. Assim, quando estiver diante da situação-limite, a criança terá a chance de ser estimulada a trocar a comunicação corporal pela argumentação verbal.
Impeça que a criança sinta-se agraciada com o comportamento inadequado. Ela não deve usufruir daquilo que conquistou à base da mordida (isso vale para chutes, beliscões, tapas, arranhões). Além disso, estimule sempre um pedido de desculpas.
Se você perceber a necessidade de ameaçar com uma medida punitiva, combine o que acontecerá se o ato voltar a ser praticado e cumpra o combinado. Voltar atrás é dizer que você não tem certeza de sua decisão. Vale lembrar que a punição não deve ser física e que a criança não deve ser humilhada.

Ela foi mordida de novo

Muitas vezes, avalia-se que uma criança é precoce, que é mais madura porque gosta mais de conviver com crianças mais velhas ou com adultos, demonstrando desconforto, inquietação e irritação quando está com outras crianças de sua idade. Claro que é possível que isso ocorra, mas o que verificamos, normalmente, é que o dia-a-dia entre indivíduos da mesma faixa etária, na fase do desenvolvimento de que estamos tratando, é mesmo o que há de mais difícil – por isso, às vezes, menos desejado -, pois todos têm demandas semelhantes. Aqui não há o que “tem que ceder porque o amigo é mais novo”.
Voltemo-nos para a criança que é mordida repetidas vezes. Ela precisa de acolhimento – atenção e ajuda – para melhorar seus reflexos, expressar seu descontentamento e encontrar mecanismos de defesa. Fortalecê-la, porém, não é incentivar o revide, o que ocorre com frequência com alguns pais pelo receio de que seu filho se torne um sujeito passivo diante da vida. É preciso lembrar que o adulto não deve oferecer um modelo agressivo sob pena de fixar o ambiente hostil que está rondando os primeiros relacionamentos da criança. Por mais que seja sofrido ver o filho marcado por um colega, evite o rancor, pois a criança que morde não é má, e seus pais sofrem muito temendo que ela seja discriminada pela turminha e pelos outros pais.

Final feliz

Bem, a boa notícia é que esses comportamentos são passageiros. Se bem conduzidos, por mãos firmes e afetivas, nossos pequeninos aprenderão a superar essa fase e construirão relações sociais saudáveis. Trocar experiências com o professor, com o coordenador, com o pediatra e com outros pais rende tranqüilidade para uma ação positiva.

É importante que os pais fiquem cientes de que isso é um fato comum nas salas onde convivem crianças que estão ainda em fase de amadurecimento do Sistema Nervoso Central. Vale lembrar que somos todos inocentes, tanto a criança que agride através da mordida, expressando seus conflitos internos, quanto a criança que ainda não aprendeu seus mecanismos de defesa. Também são inocentes os pais que entram em angústias a defenderem seus pequenos, quanto a escola que depara com essa situação e muitas vezes se sente impotente ao receber o rótulo de negligente. A coerência entre os adultos é sempre a melhor forma de suavizar esses pequenos conflitos diante da vastidão de angústia do mundo dos adultos.